Família do fundador do Instituto Anglicano Barão do Rio Branco visita a escola

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Da esquerda para a direita: Walter, Joel, Bernardete e Rogério.

Joel Alberto Blank, filho do fundador do Instituto Anglicano Barão do Rio Branco (IABRB), visitou a escola no dia 15 de setembro acompanhado do filho Rogério Blank,  do sobrinho Walter Gress e da nora Bernardete Blank. No ano em que a escola completou 88 anos, seu Joel completará 90. As histórias dos primeiros 12 anos da vida de seu Joel, período em que não só acompanhou o trabalho do pai Alberto Blank em Erechim como também contribuiu, são contadas com riqueza de detalhes e brilho nos olhos.
Foi na escola mista construída pelo pai em 1929 que Joel iniciou os estudos. Anos depois, muito mais do que formar-se nas Engenharias Civil, Elétrica e Mecânica e fazer Pós-Graduação em Administração, Joel ajudou a tirar sonhos do papel. Com o pai, participou da construção de igrejas e escolas. Ao lado de Rubem Berta, ajudou a construir a ponte aérea Rio-São Paulo. Participou de projetos importantes na Varig, onde foi chefe de estruturas.
Apesar das obras grandiosas, Joel garante que a sua maior realização é ver a alegria das pessoas: para isso veio a Erechim com a família. “Essa é a terceira vez que retorno a Erechim. Na visita anterior, participei da inauguração da biblioteca Alberto Blank. Há dois anos parei de trabalhar e comecei a escrever/documentar a história da nossa família”, conta Joel, justificando a curiosidade que motivou a família a realizar esta visita a Erechim e Marcelino Ramos, no mês de setembro.
A jornalista Aline Vogt Ongaratto, da comunicação/marketing do Barão/FAE, recebeu a família Blank na biblioteca batizada com o nome do fundador da escola. Confira a entrevista completa:

Como seu pai entrou para a missão anglicana?
Joel: Meu pai Alberto Blank era o sétimo filho de 12, a quem meu avô, Carlos Blank, dava atribuições diferenciadas dos demais: ele era o responsável por controlar o engenho que a família tinha no Sul do Estado, na região de Pelotas, na época colônia francesa. Em uma visita do Bispo Kinsolving à família, Alberto foi designado pelo meu avô a estudar em Porto Alegre para estudar e auxiliar na divulgação da missão anglicana. Ele foi o primeiro aluno do Bispo Kinsolving e, como seminarista, ajudou a construir a Igreja  Ascensão. Em 1923 foi ordenado ao Ministério Sagrado pelo Bispo e, neste mesmo ano, nomeado pároco para a Vila de Paiol Grande, hoje Erechim.

Como foi o início do trabalho de seu pai em Erechim?
Joel: Quando chegou a Vila de Paiol Grande (Erechim), em 1923, Alberto Blank conheceu os senhores Aldo e Múcio Castro, que eram lideranças da Igreja Metodista e deram total apoio ao trabalho do meu pai e se tornaram os primeiros paroquianos. Foi Múcio, inclusive, quem o apresentou a minha mãe, dona Carmelinda Mendes, que era natural de Rio Grande, mas na época atuava como organista da Igreja Metodista de Passo Fundo. Certo dia ele foi até Passo Fundo, conheceu minha mãe e também se deu muito bem com o reverendo da Igreja Metodista. O casamento dos dois aconteceu na Igreja Metodista de Passo Fundo, em outubro de 1924.

E o terreno para a construção da igreja?
Joel: O terreno para a construção da Igreja de Jesus Cristo foi doado pela Comissão de Terras, com a exigência de que fosse apresentado o aproveitamento do espaço em até três anos, sob o risco de perdê-lo. Como não tinha verba suficiente para a construção da igreja, meu pai recorreu aos Estados Unidos, não sei dizer quanto conseguiu. A construção da Igreja de Jesus Cristo foi pelas próprias mãos do meu pai, assim como os móveis: presbitério, bancos e púlpito. Esta igreja foi inaugurada em 1924. Também houve grande apoio da maçonaria, já que na época a Igreja Católica, que era conhecida por “romana” entre os protestantes da época, era igreja oficial do império e queria oficializar violentamente a religião no Brasil. Com a República e a Constituição de 1891 extinguiu-se “Igreja oficial”, sendo garantida a liberdade de culto e a maçonaria, que é mundial e muito forte, principalmente nos Estados Unidos, sempre teve o intuito de desenvolver uma liberdade fundamental para todos, independentemente de quem fosse.

E qual foi o papel da maçonaria na construção da Igreja de Jesus Cristo?
Os maçons deram muito apoio para a construção da igreja e, na época, grande parte dos reverendos eram maçons. É importante deixar claro que a maçonaria é uma sociedade que procura o bem-estar do povo, tanto que a independência dos Estados Unidos, por exemplo, foi feita pela maçonaria. Principalmente na Europa, compreende-se que a maçonaria é uma sociedade que se junta para o bem. Eu sou maçom, fui educado em colégio maçom, o Colégio Pelotense de Pelotas, e o primeiro bispo brasileiro também era. Eu não sou contra religião nenhuma. Na época, a Igreja Romana separava as mulheres dos homens, acreditando que o homem deveria ser educado como o chefe da família e a mulher para cuidar do lar: a maçonaria não admite isso, ao contrário, defende que não pode haver diferenças entre homens e mulheres, que todos têm o mesmo direito, e por isso, criou um colégio misto, hoje com 115 anos, que foi o Colégio Pelotense, hoje a maior escola pública da América Latina.

Como era a relação de Alberto Blank com as outras igrejas?
O pai tinha uma boa relação com todas as outras igrejas, ele queria paz, era muito dócil com as pessoas. Tanto que uma vez, durante uma procissão, atearam fogo a uma igreja, o padre se queimou e eu fui junto com o meu pai, no interior aqui de Erechim para socorrê-lo. Então meu pai preparou um quarto escondido e cuidou dele dentro da igreja. 

E a igreja inaugurada por Alberto Blank em 1924, foi o mesmo espaço onde foram ministradas as aulas da escola primária, em 1929?
Joel: Não. Tem um fato muito interessante: na época, não sei por qual motivo, mas alguns vândalos que passavam pela igreja quebravam os vidros, então o meu pai pediu para que minha mãe desse o dinheiro da casa que ela tinha recebido de herança do meu avô João Mendes, que era dono de um cartório em Rio Grande e quando faleceu deixou uma casa para cada filho, e assim construiu a Casa Pastoral e escola. A escola foi totalmente construída com o dinheiro da minha mãe.

Quantos filhos Alberto e Carmelinda tiveram? Todos nasceram em Erechim?
Joel: Da união entre os dois nasceram seis filhos, na seguinte ordem: Ruth Elvira, Esther Angélica, eu (Joel Alberto), Miriam Magdalena, Deborah e Joás João, todos nascidos em Boa Vista do Erechim.

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Seu Joel, ao lado da foto do pai, que tem um lugar especial na Biblioteca do Barão

O senhor foi aluno da escola? O que lhe vem à memória ao pensar sobre a época?
Joel: Sim, eu fui aluno da escola e meu pai me cobrava muito a leitura, pois os livros eram importantes para conhecimentos gerais. Como estudou em Porto Alegre, ele tinha contato com a tradutora da livraria do Globo então, todos os livros que saiam, livros grossos, como “Tesouro da Juventude”, “Zé Limpa Chaminé”, “Os Bichos da África”, todos esses livros eu tinha que ler. A escola era mista para meninos e meninas e também recebia alunos de qualquer religião, só uma coisa: não podia fumar e meu pai vigia para que ninguém o fizesse isso porque ele aprendeu com o meu avô que a maior droga que tem é o cigarro. Outra coisa que fazia era dar aula de Ciências e tudo que proporcionasse descobertas. Era época da saúva, aquelas formigas grandes de asas e espalhavam-se em uma quantidade tão grande que foram consideradas pragas, destruindo terras e lavouras. A frase popularizada pelo escritor Lima Barreto dizia que “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. Como meu pai gostava muito que todos aprendessem, ele soltava os alunos a campo para recolher o máximo possível dessa formiga, depois, a Prefeitura pagava em quilo pela entrega e muitas escolas também faziam a mesma coisa. Alberto Blank também ministrava as famosas “aulas de férias”, onde o tempo era dedicado ao ensinamento de trabalhos manuais. Ele ainda construiu classes individuais, cada aluno tinha sua própria classe e ele queria que utilizassem canetas. Para isso, embutiu tinteiros nas classes e, no final do ano, cada aluno era responsável por limpar sua classe porque cada um era responsável pela sua. Para as festas, as classes eram retiradas do salão, assim como as divisórias da escola, que eram móveis. No fundo, tinha um palco muito grande, de quatro metros de largura, que era utilizado para as apresentações.

Em que época o senhor começou a trabalhar com o seu pai?
Joel: Comecei a trabalhar com o meu pai com menos de 10 anos de idade, eu era o sineiro, responsável pela comunicação em toda Erechim. Fazia também todos os trabalhos quando ele estava em viagem, nas missões com os índios. Já nas viagens mais próximas, até Marcelino Ramos, Gaurama e Baliza eu o acompanhava. Em Gaurama, por exemplo, ele achou que a igreja estava muito velha, foi lá e construiu uma nova.

Em que locais Alberto Blank visitava os índios? Com que frequência?
Joel: As visitas aos indígenas eu não acompanhava, porque era longe, em Santa Catariana, ele ia a cavalo, abrindo picadas pelo mato. Essas visitas eram realizadas duas vezes por mês. Em 1932 ele foi nomeado missionário geral entre os índios, corados e caingangues. Em uma dessas viagens ele pegou tifo e o seu Valério Malinski, do Hospital Santa Terezinha, foi quem tratou dele. Todos nós ficamos em quarentena. O pai também foi um dos orientadores do hospital Santa Terezinha, ele tinha curso de Homeopatia e dava remédios homeopáticos a todos que o procurava, orientando a forma como eles deveriam ser administrados.

Por quantos anos a família permaneceu em Erechim?
Joel: Meu pai trabalhou em Erechim por 15 anos e, nesse tempo, ele nunca tirou férias. Saímos de Erechim no início de 1939, quando meu pai entrou em licença para tratamento de saúde. Quando fizemos a mudança eu tinha 12 anos. Fomos para a Capela da Epifania, uma paróquia bastante simples, em Pedro Osório. Lá, um dos fatos que me lembro com bastante clareza, foi que construímos um moinho. Meu pai, muito criterioso, queria que a queda d’água tivesse no mínimo seis metros de altura, eu vinha medindo com um nível e deu oito metros, foi uma grande conquista. Anos depois voltamos para Pelotas e Alberto Blank foi administrador do Orfanato Rev. Severo Duval da Silva. Já em 1940 foi nomeado para Canguçu: lá também construiu uma nova Igreja, Casa Pastoral e Escola. Em 1952 foi novamente transferido, agora para Canoas, na Missão de São Lucas. Como a verba não era suficiente e a congregação aumentou bastante, eu, que já tinha me formado engenheiro, fiz a planta e também ajudei a construir a Igreja, Casa Pastoral e Escola. Depois desta missão, a família foi morar em Porto Alegre, onde meu pai aposentou-se (1965 aos 65 anos) e faleceu, no dia 11 de agosto de 1981.

Rogério e Walter, quais são as lembranças que vocês têm de Alberto Blank?
Rogério e Walter: Convivemos com ele mais no final dos anos 60, quando já morava no Bairro Glória, em Porto Alegre. Ele tinha uma casa com pátio bem grande, que contava com marcenaria e, ao fundo, canteiros onde ele plantava moranguinhos: cada canteiro era de um neto. Ele nos esperava sempre com novidades: construía brinquedos como patinetes e até uma roda d’água, que tocava carrossel. Ele nos dava as ferramentas e liberdade para trabalhar, desenvolver as coisas, nos ensinava. Todos os dias cuidava das suas roseiras, parreira. Em 1959, o Joel deu para ele um fusca, pois ele sempre quis um carro, e nós, os netos e sobrinhos, saíamos para passear de Fusca com ele. Até hoje temos o Fusca verde-claro, de 1956. Ele não era muito de falar, era mais de agir. Gostava muito de ver a gente trabalhando, se movimentando, aprendendo coisas novas e sempre nos transmitia algum ensinamento, mesmo que fosse sobre a forma correta de podar uma roseira.

É a primeira vez que vocês visitam Erechim? Qual foi a impressão que tiveram?
Bernardete: Sim, eu e o Rogério, meu esposo, estamos na cidade pela primeira vez. O Walter já conhecia, mas somente de passagem. Ficamos surpresos com as instalações do Barão do Rio Branco e com a educação dos alunos: hoje pela manhã entramos em duas salas de aula, apresentei o seu Joel, disse que esse ano estará completando 90 anos e os alunos ficaram todos parados, observando, prestando atenção, achamos isso encantador. A dissertação do professor Vinicius Drey, que descobrimos através de pesquisas na internet, também foi motivo de orgulho por vermos a história de um familiar contada. Nossa família é muito unida: meu sogro Joel é muito agregador, assim como a Dóris, sua esposa, que faleceu não faz muito tempo. Ela era cantora lírica, fazia trabalhos lindos, todo esse espírito de união e fazer o bem vem da religião Anglicana.

Vocês acreditam que Alberto Blank tinha dimensão de que a escola que ele construiu em Erechim formaria tantas pessoas?
Bernardete: talvez ele não tivesse essa dimensão, mas ele pensava grande. Alberto Blank tinha uma cabeça muito aberta para a época.

Assista também ao vídeo que gravamos com os visitantes:

 

4 comentários sobre “Família do fundador do Instituto Anglicano Barão do Rio Branco visita a escola

  1. Gostei muito da entrevista. Foi bom saber algo do passado contado assim por quem dele participou. Detalhes sobre aquela época e sobre a escola que eu não conhecia. Parabéns Aline !

  2. Excelente matéria, parabéns.
    Estudei no INSTITUTO BARAO DO RIO BRANCO, onde me formei em 1989, e não tinha conhecimento desta linda história.
    Bom conhecer o passado para entender o presente.

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